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NÃO RENUNCIAREI! DISSE TEMER

May 23, 2017

A HORA DA GRANDEZA

 

    “Não renunciarei”! Disse Temer, no Palácio do Planalto, ao negar que deixaria o cargo. Sabe-se que uma grande crise atingiu sua gravidade máxima  quando, nas discussões que ocorrem de norte a sul do país, as duas palavras mais pronunciadas são renúncia e impeachment. Em todas as rodas de deputados, senadores, empresários, juristas ou jornalistas, fala-se na possibilidade de uma ou de outra saída – e assim tem sido desde que o jornal O Globo revelou o conteúdo da delação do empresário Joesley Batista, dono da J B S. Numa conversa gravada, Temer dá a impressão de aprovar a compra do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, preso há sete meses.Temer inicia uma negociação com interlocutor, que resultou mais tarde no pagamento de 500,000 reais em dinheiro vivo.

     A crise deflagrada pela denúncia se desdobra em duas esferas. No plano jurídico, a situação é clara: O presidente Michel Temer é inocente até que se prove o contrário  - e, para que o contrário seja provado, é preciso que se percorra com rigor e serenidade, o caminho previsto nas leis e nos códigos. Desde quinta feira, assim que saiu a autorização para a abertura de um inquérito, Temer está formalmente sob investigação da Lava-jato. Tem direito a ampla defesa.

     As névoas estão no plano político. Com uma suspeita séria, o presidente fragilizou-se. É nesse contexto, emoldurado por um estado de perplexidade nacional, que aparecem as palavras “renúncia e impeachment”. Discute-se se alguma das duas alternativa poderia oferecer uma saída para o caos em que o país foi jogado por suas altas esferas. A que o presidente Michel Temer está buscando não é nenhuma delas: é permanecer no Palácio do Planalto. Na mesma quinta feira, Temer fez um pronunciamento de menos de cinco minutos no qual foi categórico: “Não renunciarei”. A renúncia é um ato pessoal e intransferível, mas não se materializa inteiramente por moto próprio: decorre, sobretudo, da pressão e do peso das circunstancias. O impeachment, a outra opção aventada,  dispensa explicações. Os brasileiros são o povo mais versado no assunto no planeta e, portanto, conhecem bem suas dores e seus dramas.

     Seja qual for a saída encontrada, nessa hora grave é preciso grandeza – e não apenas do presidente. Grandeza dos homens públicos que ocupam os postos centrais do poder nacional. Grandeza para que, em busca de uma solução para o delicado momento que o pai vive, sejam capazes de por os interesses do Brasil acima dos interesses pessoais., de modo que o país possa seguir em frente., superar as dificuldades, romper as amarras da recessão, aprovar as reformas estruturais, cumprir a caminhada rumo à modernidade, libertar-se da mediocridade econômica e – enfim – dar ao povo brasileiro a oportunidade de construir uma vida justa e digna.

     Para que este sonho, ao mesmo tempo grande e singelo, possa se realizar, os homens públicos devem pensar mais no país do que em seu próprio destino. Os fatos mostram que, hoje em dia, talvez não haja pregação mais inútil do que pedir gestos de desprendimento aos políticos brasileiros, eles que tem dado provas tão contundentes de despreza à ética e à decência. Mas o Brasil  precisa perseverar, precisa de serenidade para encontrar a saída menos traumática e mais correta. Os milhões, os múltiplos milhões de brasileiros que lutam honestamente por uma vida decente não merecem ser punidos pela incompetência política e pela mesquinharia dos poderosos.

Extraída da Revista Veja na Coluna Carta ao Leitor

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