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FALANDO DE MULHERES

June 7, 2017

TRADIÇÃO E MODERNIDADE – UMA ÁRABE NO BRASIL

     “Amo as mulheres que despidas, nunca estão, de todo, nuas”.  (Imu al Quais)

     Nasci em Cochabamba, Bolívia, num dia de Yemanjá. Vim ao Brasil devido às festas. Meu pai, imigrante do oriente médio, escolheu o Brasil depois de assistir, em 1954, o Carnaval do Rio e as comemorações dos quatrocentos anos em São Paulo. Um país assim só poderia dar um bom futuro. Tive uma infância onde ainda se brincava nas ruas e as portas das casas ficavam abertas o dia todo. Tenho um irmão cinco anos mais novo. Certo dia ele saiu sozinho engatinhando pela vila que morávamos, na Rua Frei Galvão, atravessou a Rua Artur Ramos, chegou ao posto de gasolina da Av. Cidade Jardim e voltou para a casa no colo do frentista. Este era o Salvador. Como as ruas eram tranqüilas naquela época! Um bebê atravessar uma rua, ser devolvido! Que tempo bom de se viver!

       Naquela época, tínhamos conta na padaria, no empório, no açougue; até no carro de pães doces e sorveteiro que passava na rua às tardes. A confiança era a tônica das relações. Mudei de casa e ainda continuei brincando na rua. Andava de bicicleta o tempo todo e fazia guerra de mamona com os meninos nos terrenos baldios, entre as ruas do Jardim Paulistano. O piquenique era na Praça da Gabriel Monteiro da Silva. Só não podia ir ao Rio Pinheiros, pois era perigoso seria na água. Depois, veio o Shopping e toda a região mudou completamente. Meu pai tinha a Sarú, loja de roupas infantis. Se a primeira loja foi no centro, na Barão de Itapetininga, as outras foram descendo pela rua Augusta até chegar ao Shopping. Minha mãe sempre foi do lar e trabalhava em voluntariado e no jogo de cartas.

       Minha adolescência foi na época da repressão. Além da repressão política, onde quem transgredia era subversivo, acontecia em casa a repressão moral característica do mundo árabe. Tudo era Haran. (vergonha). Desde os 17 anos, ouvia conversas sobre casamento. Casar era importante... e cedo! Quando quis continuar meus estudos, meu pai se fechou no quarto e sofreu. Como iria casar se estudasse? Entrei em duas faculdades. Qual cursar? Não ouvi suas recomendações. Cursei por um tempo duas faculdades, Biologia na USP e Psicologia na PUC. Queriam me casar! Apresentavam-me rapazes, até que aos 19 anos gostei de quem é, até hoje, meu marido. Tive muita sorte. Tenho ao meu lado um amante, amigo com valores, ligado à família e grande companheiro. Um só problema: não gostava dos estudos, de meu trabalho, de minha independência.

       Estudei ballet e era convidada a dançar em musicais infantis. Que escândalo! Eu fantasiada de gata, de collant no palco de um teatro! Meu marido assistiu e não viu problema! Aprovava minha iniciativa! Havia estudado na Europa e tinha idéias, mas modernas. Meu pai não entendia minha vontade de ser independente, fazer o que minhas amigas faziam. Tive aulas particulares para tirar minha carteira de motorista (escondido). Eu era chefe do Distrito de Bandeirantes. Tinha que levar um documento para ir com as meninas ao acampamento. Peguei o carro de minha mãe e fui com minha avó, a meu lado, levar o tal documento. Cruzo – por azar – com meu pai, na av. Rebouças. Foi a maior briga. Como! Eu guiando brigar? E minha avó acompanhando?

       Meu marido também descendente de família árabe, não tinha esse modelo de mulher em casa. Sua mãe cozinhava divinamente e cuidava da casa. Costurava as próprias roupas! Continuei os meus estudos e, mais tarde, o meu trabalho. Parece até que estou num país árabe! A mentalidade é um país? Pedir licença para estudar, para trabalhar. Meu sogro dizia: Por que trabalhar? Para ele era suficiente ter marido e filhos. Cumprimentar, em árabe, uma moça sempre desejando que ela dê à luz um menino, é bastante usual na cultura árabe. Qual o preconceito contra as mulheres?

       Tive dois filhos ainda na faculdade, aos 21 e 23 anos, sem licença maternidade, numa cultura feminista de incentivo ao uso do leite em pó. Logo depois, mudei para uma casa maior, num bairro promissor, mas sem luz na rua, asfalto, nem telefone. No dia da festa de inauguração da casa, dia do meu aniversário de casamento, tive uma dor terrível: foi diagnosticada uma gravidez tubária. Operei e abortei para salvar minha vida. O que iria comemorar? Não estava dando conta dos filhos, da casa no bairro novo, do casamento, trabalho, consultório e especialização. Estressada, pude compreender o colapso via corpo. A dor foi grande, pois o filho perdido era um enorme luto a ser feito. Depois desse colapso desisti da carreira universitária e adiei a especialização. Desejava ficar mais com os meus filhos.

       No hospital, ainda convalescente, meu pai me visitou e trouxe uma chave de presente. Era a chave de um consultório. Vivi a experiência com enorme emoção. Era um modo de reconhecer minha profissão, de reparar. Chorei muito, pois ganhara o reconhecimento, o consultório, mas perdera um filho. Devagar, fui me recuperando; demorei para sair da crise, mas nunca parei de trabalhar e estudar. As coisas iam bem; cresci profissionalmente, e aos 33 anos outra gravidez me deu outra filha. Ser mãe aos 21 e aos 33 foi completamente diferente. Nesses 10 anos surgiram: o computador, o fax, o celular, fraldas descartáveis, carrinhos de bebê mais leves, tudo era mais fácil. A situação econômica mais estabelecida também permitiu mais tempo para ficar em casa. Pude amamentar, pois a cultura era essa. O mesmo pediatra recomendou leite materno até aos seis meses.

       Aos 35 anos realizei o sonho de entrar na Sociedade Brasileira de Psicanálise. Escrevi o livro Mundo Fashion, Modelos e Bastidores, plantei árvores, tive neto. Após um curso de Mediação de Conflitos, entrei nessa área cheia de sonhos: desde de ser facilitadora de conversas em Fóruns, até mediar pessoas de culturas e países os mais variados.

       Há dois dias nasceu uma neta. Como costume árabe, não se diz o sexo antes do nascimento. A surpresa de ser uma menina foi ainda elevada à enésima potencia. Ela se chamará Mirian, meu nome. Lembrei que me contaram que, quando nasci, meu pai viu que eu era uma menina e viajou. Voltou depois de duas semanas. Nesse ínterim, um rabino passou pela cidade e sugeriu Miriam, já que ainda não haviam escolhido um nome para mim. A Miriam, hoje, vem desejada, com nome homenageando as raízes. Ver meu filho criando seus filhos é, para mim, uma das maiores alegrias.

       Que mais resta fazer? Tenho muito pela frente! Continuar o que adoro: estudar, ler, viajar, trabalhar, ajudar mais pacientes, mediar conflitos e, principalmente, construir algo que me transcenda. Quero deixar uma marca, fazer da minha casa um lar para acolher o próximo, fazer saraus, trabalhar com cultura, cavalgar e... mais, muito mais!

       Miriam Tawil – Psicóloga e Psicanalista da International Psychoanalytical Association; Mediadora voluntária em audiências. Casada há 35 anos. Mãe de três filhos e avó de dois netos.

 

 

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